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terça-feira, 29 de setembro de 2015

RETRATO


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?


CECÍLIA MEIRELES, in ANTOLOGIA POÉTICA

(1963; Nova Fronteira, Brasil, 2001; Relógio D'Água, 2002)

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

ESTOU MAIS PERTO DE TI PORQUE TE AMO


Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.


Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.


Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.


Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.


Joaquim PESSOA, in OS OLHOS DE ISA [edição especial, Litexa Editora (1983)]; O POETA ENAMORADO (Ed. Esgotadas, 2015)

sexta-feira, 19 de junho de 2015

«Volta até Mim no Silêncio da Noite»

Volta até mim no silêncio da noite 
a tua voz que eu amo, e as tuas palavras 
que eu não esqueço. Volta até mim 
para que a tua ausência não embacie 
o vidro da memória, nem o transforme 
no espelho baço dos meus olhos. Volta 
com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário 
vestido com a mortalha da névoa; e traz 
contigo a maré cheia da manhã com que 
todos os náufragos sonharam. 

Nuno Júdice, in 'O Movimento do Mundo' 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Pergunta-me


Pergunta-me

se ainda és o meu fogo

se acendes ainda

o minuto de cinza

se despertas

a ave magoada

que se queda

na árvore do meu sangue


Pergunta-me

se o vento não traz nada

se o vento tudo arrasta

se na quietude do lago

repousaram a fúria

e o tropel de mil cavalos


Pergunta-me

se te voltei a encontrar

de todas as vezes que me detive

junto das pontes enevoadas

e se eras tu

quem eu via

na infinita dispersão do meu ser

se eras tu

que reunias pedaços do meu poema

reconstruindo

a folha rasgada

na minha mão descrente


Qualquer coisa

pergunta-me qualquer coisa

uma tolice

um mistério indecifrável

simplesmente

para que eu saiba

que queres ainda saber

para que mesmo sem te responder

saibas o que te quero dizer



Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho'

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Segredo


"Não contes do meu

vestido

que tiro pela cabeça


nem que corro os

cortinados

para uma sombra mais espessa


Deixa que feche o

anel

em redor do teu pescoço

com as minhas longas

pernas

e a sombra do meu poço


Não contes do meu

novelo

nem da roca de fiar


nem o que faço

com eles

a fim de te ouvir gritar"


Maria Teresa Horta, in “Poesia Completa” 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

AMOR (?)

Eu estava tão perto de ti que sinto frio ao pé dos outros.
Paul ÉLUARD

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Chorei(te)...

(Re)lembrar o passado, (re)viver os fios suspensos que entrelaçaram a vida, as vidas, (re)ler textos em que se expuseram sentimentos, emoções, desejos, foi o trabalho do serão de hoje.
(Re)mexer, fez doer...
É difícil contar histórias quando nelas há interstícios da nossa estória.
Mas as etapas ultrapassadas, os pontos de chegada, as expectativas, são estadios de crescimento e, as cicatrizes servem para (re)lembrar, (re)ter ensinamentos...
Apesar de tudo a melancolia envolveu-me e não resisti à saudade: chorei...
Chorei(te)!...

Bem vindos!

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