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sábado, 10 de outubro de 2015

Distância e silêncio

Foi bom saber-te com a resistência acutilante de quereres recusar ser mandado pelos filhos. Espero que essa força continue a manifestar-se, ainda que, depois, faças o que eles dizem. Eles estão mais capazes de perceber o que será melhor, por muito que doa (e eu sei que dói)...

Felizmente o esqueleto melhora! E, felizmente também, a cabeça mantém o curso e o desejo indómito mantém-se "aceso" e inalterável. 

Como é bom receber-te assim, inteiro.

Gosto de ti contra o meu peito. Mesmo sem apertar, os abraços gratificam-me da mesma maneira e, se magoam menos assim, vamos abraçar-nos, contra o peito, devagarinho...

De tempos a tempos (nomeadamente quando chego a casa), gosto de descansar a minha cabeça no teu colo. Como saio retemperada depois dessa memória/imaginação!...


Receio a distância e o silêncio...


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

ESPIGA


O meu corpo
tombado na cama
como trigo vergado na eira
é um corpo
onde vadiou a chama
flamejante e altaneira.

Mas este corpo
não é ainda trigo ceifado
pois tem seiva, força, raíz
é apenas um corpo
saciado, em deleite e descansado
na eira dos corpos viris.


Vem, seduz o meu corpo
sorve a haste sob o lençol
sussurra uma doce cantiga
e verás o meu corpo
erguer-se aprumado ao sol
mostrando a força da espiga.



JOÃO MORGADO, in PARA TI (Kreamus, 2014)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Vigílias


ESCREVO-TE A SENTIR tudo isto
 e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata
da fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto
ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco
morde a
sua imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de
romã
repara como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar

 (AL BERTO, 2004, p. 49).


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

ONTEM…


1.
Ontem pensei
no meu amor por ti
Recordei
as gotas de mel nos teus lábios
e lambi o açúcar
das paredes da minha memória.

2.
Por favor,
respeita o meu silêncio,
o silêncio é a minha melhor arma.
Escutaste as minhas palavras
quando fiquei silencioso?
Sentiste a beleza do que disse
quando não disse nada?

Nizar Kabanni

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

COISAS TUAS


Levo coisas tuas para poder estar contigo
na distância.
Para nunca te perder a companhia,
mesmo não estando.
Levo gravado o teu gesto,
o pranto, o riso, e,
(ora inocente, ora picante),
o teu sorriso,
que é a tua expressão,
o teu maior encanto.
E levo um objecto,
teu pertence,
como se o espaço tivesse autoridade
e o tempo nos afastasse.

Como se fosse preciso...


MARGARIDA FARO, in 44 POEMAS (Fonte da Palavra, 2011)

domingo, 10 de outubro de 2010

AMAR

"Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer...


E dos meus olhos fechados
desceram lágrimas que não enxuguei,
E da minha boca fechada
nasceram sussurros


E palavras mudas que te dediquei..."


Mario Quintana

terça-feira, 6 de abril de 2010

Utopia

Suspensa em etérea espera,
de inesperada lambra
em aconchego improvável,
desacerto acertado,
sem culpa ou mácula,
ou controvérsia consciência
de ser e acontecer
sou, sem lei, utopia.
Com inolvidável esperança
no inteiro desapego do dizer,
com o desejo incontornável
do querer que transborda e se anula,
no vazio da verdade que se inventa,
segue imberbe o tempo,
deslavado trapaceiro,
escondendo os segundos
e os silêncios,
na ilusão do possível,
num inviável esteio, requerido,
em inegável enleio,entretecido.

sábado, 17 de outubro de 2009

Ausência de ti

São tantas as saudades
que quase sufoco,
que quase enlouqueço.
É a falta sentida
elevada a infinito.
É a vida rechaçada,
o tempo que veloz,
arruína a esperança,
a ilusão do teu abraço.
A solidão adensa
o ar irrespirável no espaço apertado,
feito górdio laço.
Presa nos esporões da impossibilidade,
nos muros labirínticos da verdade,
penso-te, sonho-te,
numa procura incansável de ti,
de liberdade…

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Projecto ser mulher/ser melhor

É por me sentir desejada
que eu desejo tua presença,
na ausência das minhas memórias,
no sossego do meu quarto,
no silêncio do meu lar,
no vazio do meu ser.
E o desejo, esse,
enche o vácuo,
o leito do meu querer,
e incendeia com o vento,
este espaço cavo meu,
projecto de ser mulher,
desejo de ser melhor.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Estranha lucidez

Sei-te nas veredas do mau(meu?) tempo,
apesar de ensolarados desejos
de permanecer esperança.
Neste espaço nu,
carente de aconchego,
(re)visito-me vestindo arrogância,
e num desvelo de maturidade,
transpiro laivos de fraqueza
imbuídos de espontaneidade.
Autênticidade? Não. Não sei...
Talvez apenas fugacidade do ser
que em pleno amanhecer
desfalece de saudade
e se afunda em vontade de mudança...
Escolhi esta vida, em tempos.
Hoje odeio ter de a viver
confrontada comigo mesma,
e com os ecos
da minha memória, insolente.
Cegueira. Surdez. Demência(?)
Estranha lucidez, vã glória
de caminhar direita ao abismo,
guiando-me sobre o fio da navalha,
em busca de um mar acolhedor:
sereno na sua imensidão,
forte para o meu desnorte...

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Saudades II

Saudades do tempo
E de outrora.
Do sabor da vida,
Nu, fresco sumo d’amora.
Chocolate quente,
Canela e sol ardente…
Sorriso largo, faminto
Espreitando a primavera.
Saudade de amante
No ventre da espera.
Silêncio retumbante,
Numa praia distante,
De insane quimera.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Mágoa contida, chorada...

Ouço o silêncio metálico
de pensamentos recorrentes,
disfarçados de ideias,
brilhantes, luzentes,
que escondem o desejo
ausente, distante...

Densas e insistentes,
as lágrimas enfarpeladas,
cristais de mágoa sentida,
escondem a humilhação,
de me saber preterida,
destituída de futuro,
sem ter um porto seguro
que imaginei consistente.

Indiferente ao porvir,
tenho vontade de nada
sufocante e grávida,
que me envenena e me destrói,
cuja melancolia profunda,
preservera e me anula,
conjugando a exaustão,
o desconforto de me saber
sem bálsamo suavizante,
prazeiroso, amaciante...

Quis ser de novo,
viver outra forma de ser,
outra paixão maior,
e a perda em meu redor,
castrou meu íntimo força
e com ele a segurança
de me saber válida, confiança...


Com vagares de enleio
humilhada e sem freio,
sinto de novo o anseio,
de socumbir ao relento,
procurando que o vento
lance as sementes no jardim,
e me "ressuscite" de mim.
Mas, sem ti no horizonte,
duvido do deste meu norte...

Perdi-me ao navegar,
divagando em turvas águas,
perdi-te ao espreitar,
para novas oportunidades...
Choro forte essa mágoa!...
Canto, triste, o entardecer.
Porém, sonho a hora de te ver,
esperando ainda o acontecer...

domingo, 25 de março de 2007

Paradoxo

Em cada momento de existir,
entrego-me inteira,
total e completamente,
profundamente,
com autenticidade,
plenamente.

A entrega apenas dura,
o tempo da aventura,
do facto acontecido:
aquela hora.

Sem demora, retomo o silêncio
para me dizer, para me ouvir...

Bem vindos!

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