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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Pergunta-me


Pergunta-me

se ainda és o meu fogo

se acendes ainda

o minuto de cinza

se despertas

a ave magoada

que se queda

na árvore do meu sangue


Pergunta-me

se o vento não traz nada

se o vento tudo arrasta

se na quietude do lago

repousaram a fúria

e o tropel de mil cavalos


Pergunta-me

se te voltei a encontrar

de todas as vezes que me detive

junto das pontes enevoadas

e se eras tu

quem eu via

na infinita dispersão do meu ser

se eras tu

que reunias pedaços do meu poema

reconstruindo

a folha rasgada

na minha mão descrente


Qualquer coisa

pergunta-me qualquer coisa

uma tolice

um mistério indecifrável

simplesmente

para que eu saiba

que queres ainda saber

para que mesmo sem te responder

saibas o que te quero dizer



Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho'

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Inteiro em meu roteiro primavera

Quisera ultrapassar barreiras,
caminhando nas clareiras
que surgem estrada fora,
sob a sombra tranquila,
das verdejantes veredas,
em que me encontro,
e quero intensamente viver...

Quisera simplesmente escutar
a voz que teima em brotar,
rompendo o estranho véu,
que me esconde e confunde,
por exigências grosseiras,
distintas das prazenteiras,
atrofiando este meu eu...

Quisera ser ao de leve,
mansa e plenamente,
na concreta melancolia,
que a vida me confia,
e às vezes me impele e me concede
ser essa e outra ainda,
mais completa, menos desavinda...

Serás também vereda de jardim
que terei só para mim,
em algum dia, talvez,
assim o creio e espero,
já que te descobri inteiro,
nesta primavera impensada,
em meu roteiro, amante, companheiro...

Bem vindos!

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