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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

TU


Pela tua nudez
toda a glória do mundo
cabe em minhas mãos
Ardo
Corre em mim tumultuada
uma lava ardente
que só em ti descobre rumo
e apaga o tempo.



Edgardo Xavier
Publicado no Recanto das letras
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EDGARDO XAVIER (a publicar)

Retirado de:

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

ESPIGA


O meu corpo
tombado na cama
como trigo vergado na eira
é um corpo
onde vadiou a chama
flamejante e altaneira.

Mas este corpo
não é ainda trigo ceifado
pois tem seiva, força, raíz
é apenas um corpo
saciado, em deleite e descansado
na eira dos corpos viris.


Vem, seduz o meu corpo
sorve a haste sob o lençol
sussurra uma doce cantiga
e verás o meu corpo
erguer-se aprumado ao sol
mostrando a força da espiga.



JOÃO MORGADO, in PARA TI (Kreamus, 2014)

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

ESTOU MAIS PERTO DE TI PORQUE TE AMO


Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.


Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.


Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.


Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.


Joaquim PESSOA, in OS OLHOS DE ISA [edição especial, Litexa Editora (1983)]; O POETA ENAMORADO (Ed. Esgotadas, 2015)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Segredo


"Não contes do meu

vestido

que tiro pela cabeça


nem que corro os

cortinados

para uma sombra mais espessa


Deixa que feche o

anel

em redor do teu pescoço

com as minhas longas

pernas

e a sombra do meu poço


Não contes do meu

novelo

nem da roca de fiar


nem o que faço

com eles

a fim de te ouvir gritar"


Maria Teresa Horta, in “Poesia Completa” 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

DIA 100


Um dia especial é aquele onde tropeçámos um no outro.
Ou o lugar onde nos beijámos pela primeira vez. 
Ou aquele quarto de hotel.

Um sítio especial é o útero. E o colo. E o berço. E a escola.
E a casa. E a casa do nosso melhor amigo. E o nosso bairro.

E a nossa rua. E o nosso café.

É também muito especial o sítio onde nada acontece. Ou
aquele onde nunca estivemos. Ou simplesmente aquele
que não existe. Ou o que apenas existe na nossa imaginação. 

E também o sítio que não conseguimos sequer imaginar.
E na verdade é especialíssimo o sítio onde não queremos
estar. E o que nos é indiferente. E aquele que nos magoa.
E o que não suportamos. E o que não gostaríamos que existisse.

Sítio verdadeiramente especial é o texto. Onde cabem to-
dos os sítios que são especiais. E os que, por não serem,
o são. E os que estão, ainda, para o ser.


Mas, de todos, o mais especial dos sítios é aquele onde,
em cada momento, nos encontramos. E onde sentimos
fluir o tempo e a vida. Aquele sítio onde todos temos de
estar, sob pena de não ser possível estar em sítio algum
ou, não podendo sair do mesmo sítio, estar em todos os
sítios ao mesmo tempo.


JOAQUIM PESSOA, in ANO COMUM (Litexa, 2011)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Amor

"Si grand soit le monde, si loin que je sois, à chaque seconde, moi, je pense à toi... Mais quand tout se voile...quand meurt le soleil, il y a notre étoile...là haut dans le ciel... Dis lui que tu m'aimes, en la regardant, je dirai je t'aime, à ce même instant..."

Era assim ... 

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Ainda assim te amarei…

O abismo do tempo,
A vertigem do nada,
A ausência do quando,
A certeza do onde,
Na negligência do agora.
Ainda assim te amarei…
Tenho para mim
Que outra vida vivi,
Numa outra etapa
Do meu insondável ser.
E reagi mais ao como
Do que ao agora,
Ou ao porquê dum beijo
Que o desejo venceu…
Quem me dera o sorriso
Do teu abraço forte,
Poema paraíso
Da canção,
Da dádiva de então...
Nas incertezas da vida,
Nostalgia de infinito…
Quem me dera a saudade
De ti. O teu gesto guardei
Como o perdi? Não sei!
Tão incompreensível
O teu silêncio,
A perda do teu amor
Que sempre sonhei,
Acalentando a esperança
De poder ser eterno...

Bem vindos!

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