sexta-feira, 19 de junho de 2015

«Volta até Mim no Silêncio da Noite»

Volta até mim no silêncio da noite 
a tua voz que eu amo, e as tuas palavras 
que eu não esqueço. Volta até mim 
para que a tua ausência não embacie 
o vidro da memória, nem o transforme 
no espelho baço dos meus olhos. Volta 
com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário 
vestido com a mortalha da névoa; e traz 
contigo a maré cheia da manhã com que 
todos os náufragos sonharam. 

Nuno Júdice, in 'O Movimento do Mundo' 

domingo, 31 de maio de 2015

El sonido del silencio - Flauta de pan - Música instrumental

Som puro e raro!!! - Com Flauta Pan

BLUES FÚNEBRE


FUNERAL BLUES (1936)

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.

W. H. AUDEN


Tradução proposta por: http://poesiailimitada.blogspot.pt/2006/01/w-h-auden.html


PUBLICADA POR JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Impeçam o cão de latir com um osso enorme,
Silenciem os pianos e ao som abafado dos tambores
Tragam o caixão, deixem as carpideiras carpir suas dores.

Deixem os aviões aos círculos a gemer no céu
Rabiscando no ar a mensagem Ele Morreu,
Ponham laços crepe nas pombas brancas da nação,
Deixem os sinaleiros usar luvas pretas de algodão.

Ele era o meu Norte, meu Sul, meu Este e Oeste,
Minha semana de trabalho, meu Domingo de festa
Meu meio-dia, meia-noite, minha conversa, minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: foi ilusão.

As estrelas já não são precisas: levem-nas uma a uma;
Desmantelem o sol e empacotem a lua;
Despejem o oceano e varram a floresta;
Porque agora já nada de bom me resta.

W. H. AUDEN

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Vigílias


ESCREVO-TE A SENTIR tudo isto
 e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata
da fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto
ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco
morde a
sua imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de
romã
repara como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar

 (AL BERTO, 2004, p. 49).


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Pergunta-me


Pergunta-me

se ainda és o meu fogo

se acendes ainda

o minuto de cinza

se despertas

a ave magoada

que se queda

na árvore do meu sangue


Pergunta-me

se o vento não traz nada

se o vento tudo arrasta

se na quietude do lago

repousaram a fúria

e o tropel de mil cavalos


Pergunta-me

se te voltei a encontrar

de todas as vezes que me detive

junto das pontes enevoadas

e se eras tu

quem eu via

na infinita dispersão do meu ser

se eras tu

que reunias pedaços do meu poema

reconstruindo

a folha rasgada

na minha mão descrente


Qualquer coisa

pergunta-me qualquer coisa

uma tolice

um mistério indecifrável

simplesmente

para que eu saiba

que queres ainda saber

para que mesmo sem te responder

saibas o que te quero dizer



Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho'

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O Teu Olhar nos Meus Olhos



"Sempre onde tu estás

Naquilo que faço

Viras-te agarras os braços


Toco-te onde te viras

O teu olhar nos meus olhos


Viro-me para tocar nos teus braços

Agarras o meu tocar em ti


Toco-te para te ter de ti

A única forma do teu olhar

Viro o teu rosto para mim


Sempre onde tu estás

Toco-te para te amar olho para os teus olhos."
Harold Pinter 

Segredo


"Não contes do meu

vestido

que tiro pela cabeça


nem que corro os

cortinados

para uma sombra mais espessa


Deixa que feche o

anel

em redor do teu pescoço

com as minhas longas

pernas

e a sombra do meu poço


Não contes do meu

novelo

nem da roca de fiar


nem o que faço

com eles

a fim de te ouvir gritar"


Maria Teresa Horta, in “Poesia Completa” 

terça-feira, 22 de julho de 2014

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Desespero...

É um nó górdio que aperta a garganta.
O estômago e a barriga parecem geleia
em frasco apertado, esconjurado
a lançar limites nas bermas do sentir.
Angústia na certeza do infinito dedilhar
de cordas desafinadas, em tensão,
concretas de adensadas conspirações,
incongruentes e indispostas,
num azedume esofágico incandescente.
O mundo a estoirar nas mãos exangues...
Desespero pela descrença de um dia melhor.
Angústia dum anoitecer de pesadelos pressentidos.
E o nó a estreitar o cerco, a apertar, a fazer doer...

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Mágoa

Quando a mágoa
se instala,
como uma ausência,
uma ânsia,
de lágrimas a escoar
 a tristeza do ser,
os olhos alagam-se,
o corpo retrai-se,
a alma encolhe...

Sentir que o respeito,
o valor universal,
o querer incondicional,
se afundam,
se amarrotam e descartam
ao mínimo desaire,
ao minúsculo estorvo,
constrói a angústia no peito.

Desvario. O silêncio é presente
num desespero  incessante.

Tudo não passa
de conversa fiada,
de palavras ocas lançadas ao vento, ~
de rugosas superfícies
onde transparecem os nódulos,
os sulcos, as rugas, as fendas...


Como ultrapassar a mágoa?

Por favor...

Por favor, não me analise. Não fique procurando cada ponto fraco meu. Se ninguém resiste a uma análise profunda, quanto mais eu... Ciumento, exigente, inseguro, carente todo cheio de marcas que a vida deixou. Vejo em cada grito de exigência um pedido de carência, um pedido de amor.Amor é síntese é uma integração de dados. Não há que tirar nem pôr. Não me corte em fatias, ninguém consegue abraçar um pedaço. Me envolva todo em seus braços e eu serei o perfeito amor.

Mário Quintana

quinta-feira, 6 de junho de 2013

AMOR (?)

Eu estava tão perto de ti que sinto frio ao pé dos outros.
Paul ÉLUARD

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

DIA 100


Um dia especial é aquele onde tropeçámos um no outro.
Ou o lugar onde nos beijámos pela primeira vez. 
Ou aquele quarto de hotel.

Um sítio especial é o útero. E o colo. E o berço. E a escola.
E a casa. E a casa do nosso melhor amigo. E o nosso bairro.

E a nossa rua. E o nosso café.

É também muito especial o sítio onde nada acontece. Ou
aquele onde nunca estivemos. Ou simplesmente aquele
que não existe. Ou o que apenas existe na nossa imaginação. 

E também o sítio que não conseguimos sequer imaginar.
E na verdade é especialíssimo o sítio onde não queremos
estar. E o que nos é indiferente. E aquele que nos magoa.
E o que não suportamos. E o que não gostaríamos que existisse.

Sítio verdadeiramente especial é o texto. Onde cabem to-
dos os sítios que são especiais. E os que, por não serem,
o são. E os que estão, ainda, para o ser.


Mas, de todos, o mais especial dos sítios é aquele onde,
em cada momento, nos encontramos. E onde sentimos
fluir o tempo e a vida. Aquele sítio onde todos temos de
estar, sob pena de não ser possível estar em sítio algum
ou, não podendo sair do mesmo sítio, estar em todos os
sítios ao mesmo tempo.


JOAQUIM PESSOA, in ANO COMUM (Litexa, 2011)

domingo, 30 de dezembro de 2012

Amor Electro - A Máquina





Saber o que fazer,
Com isto a acontecer,
Num caso como o meu.

Ter o meu amor,
Para dar e pra vender,
Mas sei que vou ficar,
Por ter o que eu não tenho,
Eu sei que vou ficar.

É de pedir aos céus,
A mim, a ti e a Deus,
Que eu quero ser feliz.

É de pedir aos céus.
Porque este amor é meu,
E cedo, vou saber
Que triste é viver,
Que sina, ai, que amor,
Já nem vou mais chorar,
Gritar, ligar, voltar,
A máquina parou,
Deixou de tocar.

Sentir e não mentir,
Amar e querer ficar,
Que pena é ver-te assim,
Já sem saberes de ti.

Rasguei o teu perdão,
Quis ser o que já fui,
Eu não vou mais fugir,
A viagem começou.

Porque este amor é meu
E cedo vou saber,
Que triste é viver,
Que sina, ai, que amor.


Já nem vou mais chorar,
Gritar, ligar, voltar,
A máquina parou..
Deixou de tocar.

É de pedir aos céus,
A mim, a ti e a Deus,
Que eu quero é ser feliz,
É de pedir aos céus. 

Porque este amor é teu,
E eu já só vou amar,
Que bom não acabou,
A máquina acordou.

IMAGEM REFLECTIDA

"mostra-me o teu sorriso
ainda hoje
com dentes de leite
coloridos

mostra-me os teus olhos
ainda hoje
pela brisa do mar
salpicados

mostra-me a tua alma
ainda hoje
pela fresca geada
devorada

não me mostres quem não és
para poder por novos caminhos
espinhos de rosa
chocolate amargo caminhar"


Maria do Rosário Loures

in livro “Um sumário da minha vida no século passado”,

página 28, edições Edium Editores, S. Mamede de Infesta, 2010.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

ONTEM…


1.
Ontem pensei
no meu amor por ti
Recordei
as gotas de mel nos teus lábios
e lambi o açúcar
das paredes da minha memória.

2.
Por favor,
respeita o meu silêncio,
o silêncio é a minha melhor arma.
Escutaste as minhas palavras
quando fiquei silencioso?
Sentiste a beleza do que disse
quando não disse nada?

Nizar Kabanni

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

COISAS TUAS


Levo coisas tuas para poder estar contigo
na distância.
Para nunca te perder a companhia,
mesmo não estando.
Levo gravado o teu gesto,
o pranto, o riso, e,
(ora inocente, ora picante),
o teu sorriso,
que é a tua expressão,
o teu maior encanto.
E levo um objecto,
teu pertence,
como se o espaço tivesse autoridade
e o tempo nos afastasse.

Como se fosse preciso...


MARGARIDA FARO, in 44 POEMAS (Fonte da Palavra, 2011)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A tua voz

De coraçãozinho trémulo,
em descompasso inesperado,
ouvindo o som da voz
que sempre embarga...
Suspendi o pensamento,
a emoção brotou e
foi de mansinho que saiu: Oláa!
O tempo foi o tema.
Os afazeres, a continuidade...
O silêncio instalou-se no intento de falar.
De nada  e de tudo se foi falando...
A saudade evadiu-se.
Fez-se arritmia,
de descompasso acertado,
qual tango ambíguo,
desconjuntado...
Dizer o amor na solidão do ser
e do acontecer,
no amanhecer do seio dos silêncios...
Foi a conversa possível...






Bem vindos!

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