quarta-feira, 1 de abril de 2009

Frases para pensar

A falta de tua fragrância

Podiam ser versos de amor
de paixão, de sedução,
versos de amor
sentido, vivido
num instante, decisão.

Nesses versos de amor,
cantados em noite escura
de insónia e desejo,
de loucura intemporal
na saudade que perdura...

Versos de amor que quis
muito além da decência,
mais do que à dignidade,
mais do que à vida,
num acreditar de inocência.

Versos de amor que chorei,
numa culpa de ignorância
de nua prepotência,
face ao imenso silêncio
à falta de tua fragrância...

segunda-feira, 23 de março de 2009

Pura magia

Na asa esquerda
como se fora um implante,
a pureza do sentir,
a alegria de ser,
aquela asa conserva,
como se fora um implante,
a certeza do amor...
E na asa da direita
a certeza rarefeita
de um imenso turpor
que o coração enfrenta
num certo entardecer
que te trará sem rodeios
e me deixará anseios
de te saber para mim...
E, ao centro, a maresia,
a estranha sinfonia
de uma paixão pueril
que deseja a cada dia
uma vida diferente,
um azul tranquilizante,
dum sonho, pura magia...

domingo, 22 de março de 2009

Infância revisitada

Valho como ser que ama
mais do que como ser que pensa.
Valho para a realização imensa
da viva chama incandescente
que em meu peito acendeste,
alimento de um viver
cuja simplicidade reclama
o sonho de ser mulher...
Denotando-se a esperança
dum profundo querer,
profuso amanhecer de luz,
bendita alma distinta,
sonhada na genética do meu ser,
no silêncio do meu eu,
no eco da minha memória simples
da infância "revisitada",
estagnada, ingurgitada.
Infame absinto:
Metáfora de um labirinto medonho...

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Princípio


"Não tenho deuses. Vivo
Desamparado.
Sonhei deuses outrora,
Mas acordei.
Agora
Os acúleos são versos,
E tacteiam apenas
A ilusão de um suporte.
Mas a inércia da morte,
O descanso da vide na ramada
A contar primaveras uma a uma,
Também me não diz nada.
A paz possível é não ter nenhuma".


Miguel Torga, in 'Penas do Purgatório

Viagem

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…

(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga, 1962

domingo, 15 de fevereiro de 2009

"Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.
Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há, de certeza, duas folhas iguais.

Limbo todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
baínha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.

Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.

Nas formas presentes,
nos actos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.

Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam
nas dobras do vento.

É dessas que eu sou."


António Gedeão, Poesias Completas (1956-1967),
Lisboa, Portugália Editora, 1975, 5.ª ed.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A magia da semântica

São afagos delicados
frémitos doces,
sussurros melaço,
esses magros pensamentos,
são mensagens que o vento,
transporta enlaçado
nas cristas do tempo,
para mim, de ti,
feito norte friorento.
Concebes e envias
tamanhas doçuras
em letras esguias,
de saudade e ternuras,
impressas no branco,
das folhas virtuais,
soltas ao relento,
em avenidas transversais,
a coberto do mar.
São palavras de encanto
impedlndo-me a amar.
Recebo-te e enleio-me
na magia da semântica
que me embriaga e me alenta...

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Desejo que fluiu

Banalizado, o amor,
no sentir de pressões,
na ausência de palavras,
em estravagâncias...
São parábolas de esperança,
as notícias estonteantes,
em valores implícitos,
interiores deslumbrantes,
na insegurança do nada,
na efeverscência da espera,
no luto da quimera
de um em dois que se intuiu.
Valência que se esgota,
num desejo puro que fluiu...

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Saudades II

Saudades do tempo
E de outrora.
Do sabor da vida,
Nu, fresco sumo d’amora.
Chocolate quente,
Canela e sol ardente…
Sorriso largo, faminto
Espreitando a primavera.
Saudade de amante
No ventre da espera.
Silêncio retumbante,
Numa praia distante,
De insane quimera.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Desejo de nada ser

Esqueço os momentos mais apetecíveis
distanciados pela densa solidão presente,
associada à desilusão
de me saber e sentir coisificada.
Engulo silêncios com esforço,
aguento a ausência mascarada
de palavras desgastadas fugidias,
vazias de sentido e de sabor...
Lambo-me os destroços retocados,
num uivo disforme de pavor,
de afectos recusados, mal amados...
Liberto a augústia em soluço longo,
num cristalino lençol humedecido
de emudecido sentir oprimido,
desejo de nada ser, destemido...

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Retalhos de experiência

Nevoeiros emocionais
Universo privatizado,
Amontoado,
Atolado na memória.
Frustração,
Obscurecimento,
Obstrução.
Fascínio,
Vertigem inviolável,
Previsibilidade.
Absorção,
Ritual:
Fio do discurso;
Tecelão de esperança.
Incauta,
Inquietante inquietude,
Identidade: retalhos de experiência

domingo, 4 de janeiro de 2009

Espaços de ser

Desejos profundos,
de beijos devassos,
nos esparsos amassos,
em apertados enlaços...
Cansaços vivaços
de telúrica paixão.
Razão de viver,
sonhos de melaço...
Vazão de amor,
litanias,
embaraços,
esvoaços de passos...
Sons. Afagos de tons:
longos espaços de ser...

sábado, 3 de janeiro de 2009

Quero voar

"Quero voar
-mas saem da lama
garras de chão
que me prendem os tornozelos.

Quero morrer
-mas descem das nuvens
braços de angústia
que me seguram pelos cabelos.

E assim suspenso
no clamor da tempestade
como um saco de problemas
-tapo os olhos com as lágrimas
para não ver as algemas...

(Mas qualquer balouçar ao vento me parece Liberdade.)"


José Gomes Ferreira

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Devaneio...

Desencanto da vida
pela diáspora vivida,
desnuda de presença,
saudosa de concreção,
lamento de condição,
angústia de sentimento,
enredo de indecisão,
desejo de entrega,
anseio de liberdade
devaneio consolação...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Apontamento...

Noto que tudo vai ficando no limbo do depois ou do entretanto, num processo em aberto que escapa tanto à concretização como ao sentido da vida, da existência...

O desejo apaga-se nos silêncios, nas esperas, nas demandas, nos esquecimentos... Esvai-se por entre o presente e a falta, o imperativo e a ausência, a premência e a distância...

O sonho desmantela-se e aperfeiçoa-se na desconstrução inconsciente da fantasia que se esboroa e contamina em laivos de um erotismo renovado e insatisfeito.

É um fado que enfada e entedia os espaços mirrados do existir vagabundo que, sem lei, se emoldura em demência progressiva e espasmódica de contorções orgásticas, corpóreas, que retemperam e destroiem, numa agonia galopante, oprimente...

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

sábado, 6 de dezembro de 2008

Entusiasmo II

Foi assim, há dois anos atrás Como se pode ler , nesta mesma data...
Faz hoje anos. Apenas dois anos...
Mas, as vivências, as experiências,
os pensamentos, os sentimentos,
as inquietações, as dúvidas,
os desafios (...)
Foram sulcando,
encantando e desencantando,
foram fazendo das suas...
E, hoje, eis-me de novo vontade e coragem...
Ainda que magoada, ainda que com menos esperança.
Mas, com a alma cheia da certeza de que vale a pena ser.
É com entusiasmo ainda que agarro os dias e às vezes os deixo ir...
É com entusiasmo ainda que me ultrapasso e às vezes socumbo às avalanches...
É com entusiasmo ainda que canto a vida em cada mensagem...
É com entusiasmo que me descubro ainda criança em cada manhã...
É com entusiasmo redrobado que me escuto e me escondo...
É com entusiasmo que vivo a vida em cada instante...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Está frio, muito frio...

Está frio, um frio trémulo...
É Dezembro no seu melhor,
preparando o Inverno, com rigor,
num prognóstico inexoravelmente gélido.
Chove ininterruptamente, amor.
A chuva glacial enregela o corpo
fazendo entorpecer, no íntimo,
o espírito que se refugia, louco...
A noite escura e fria,
está numa sinistra agonia.
É o sombrio sentimento
de um lá fora, cá dentro,
sem luz nem aquecimento...
O dia escondeu o ser,
numa consistência molhada,
desconfortável, oprimente,
subjugando laivos flamejantes,
de um sol recôndito, clandestino,
de devotos e tristes amantes...
E, o amanhecer, prestes a nascer,
traz no seio dolorido,
o vazio luzidio do pedraço...
O gelo açambarca o tempo,
no pulsar húmido e lento,
da noite transida, insatisfeita,
em decadente e torpe maleita...
E a frialdade da hora derradeira,
transporta, zurzindo, o vento
que pelas frestas da manhã,
desenvolve tristes sentimentos,
de lúgubres almas geladas,
laçando-as de frias mágoas
e de profundos desalentos...

sábado, 29 de novembro de 2008

VIII - Quase

"Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além
Para atingir, faltou-me um golpe de asa ...
Se ao menos eu permanecesse aquém ...

Assombro ou paz ? Em vão ... Tudo esvaído
Num grande mar enganador d´espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor ! - quasi vivido ...

Quasi o amor, quase o triunfo e a chama,
Quasi o princípio e o fim - quasi a expansão ...
Mas na minh´alma tudo se derrama ...
Entanto nada foi só ilusão !

De tudo houve um começo ... e tudo errou ...
- Ai a dor de ser-quasi, dor sem fim ...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou ...

Momentos de alma que desbaratei ...
Templos aonde nunca pus um altar ...
Rios que perdi sem os levar ao mar ...
Ânsias que foram mas que não fixei ...

Se me vagueio, encontro só indícios ...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos d' heroi, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios ...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí ...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi ...


Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe d´asa ...
Se ao menos eu permanecesse aquém ..."


Paris 1913 - maio 13
Mário de Sá-Carneiro
Poemas Completos
Edição Fernando Cabral Martins
Assírio & Alvim 2001

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