sábado, 2 de janeiro de 2010

Rebeldia d'ilusão

É em cada gota de orvalho deslizante,
em cada teia tecida reluzente,
que os dias cantam anos de silêncio,
que as noites contam a tétrica solidão,
cenas de vida. De hoje. E de então...
É assim em cada instante. De rompante,
na neblina do sentir profundo,
renascendo do âmago do desesejo ardente,
valente, estonteante d'emoção,
o deserto d'um querer eterno,
de lúgubre paixão. Trama inocente,
pintada, dia a dia, d'ilusão...
Pinceladas sorrateiras. Cores fulgentes.
Telas construídas de brumosa fantasia,
em encontros fugídios,
plenos de segrado segredo e atenção,
em cujas mãos se venceram anos,
de fios frios desenganos,
que se extinguiram se unindo...
Redes, laços, filamentos desfeitos
nas noites quebradas de ironia
na esperança de um acontecer,
de um só dia,
vivido ao entardecer,
até ao anoitecer, com rebeldia.
Eis o sonho. Eis a ilusão!...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Outra vez mulher...

(Re)nascida. (Re)vigorada do transe,
(re)tocada no anúncio do novo,
(re)surgiu a salvação:
o sabor de (a) mãe,
o esquecimento da mágoa
na passagem ao além.
(Re)saber-me filha,
também (re)definiu a paisagem,
(re)pintou os reflexos
do ser e do querer.
E, num vislumbre de emoção
(re)encontrei os liames,
juntei as pontas,
fortaleci os nós,
(re)estreitei os laços.
Sou novo argamasso,
moderno espaço. (Re)novado.
Velho espírito (re)visitado.
Eis-me: (re)vivi(ficada), a(ni)mada.
De novo mãe. Outra vez mulher...

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Desaire...

Desaire. Desatenção. Desilusão.
Desencanto. Desalento. Desamparo.
Surpresa: decepção...
Equívoco. Frustração.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Soneto VI

"Todo en mi vida es un presentimiento.
Soy como hoja medio desprendida
Que ya la agita, sin llegar el viento;
Una hoja temblorosa y conmovida.
Amo, sin verla, clara imagen pura;
Y mis ansias, mi angustia y mi tristeza,
Sólo escupen y buscan en la dura
Realidad de la vida a la belleza.
Yo sabré quién espera y quién llama,
Animando el misterio y escondida,
Cuando esta fiebre que a mi ser inflama,
Ciña, por fin, la forma apetecida.
De amor humano hacia el amor divino,
Voy labrando, sin tregua, mi camino."


Pedro Prado
POETA CHILENO

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Arritmias de inverno

Dolente, na demência insane
do corrupio natalício,
espreito as horas
na azáfama do tempo que corre
e se esconde, em transe,
no frenesi stressante dos ponteiros,
do relógio, seu amante,
qual querer esvoaçante
que se envolve de rompante,
e se escusa acontecer...
Sorri o tempo na desgraça
da soleira do seu casulo.
E impune, sem arte, passa,
devagar e com chalaça,
inane ou desatento,
largando as âncoras ao vento,
ao largo, num instante,
em descargo de consciência...
Sai de mansinho o matreiro,
desdenhoso e zombeteiro,
trajando desusado fato,
escondendo as fantasias
tornadas então agonias,
de exuberante repasto,
num inferno de desgaste.
Ah como são duras e frias
estas invernosas arritmias...

Que é dos sonhos e dos laços?

O vento perpassa lesto,
em redemoinhado desacerto.
Fraquejo.
Há desalento no esconso ser
da espera, vazio.
Anseio o beijo que ateie a chama,
ressurgindo dos escombros,
das esperanças vãs,
qual fénix renascida,
em todas as manhãs,
formosa.
Desperta pela aurora
no berço das horas,
no silêncio das sombras,
lamentos...
Perdida a ilusão,
com o ego no chão,
a verdade da vida afirma-se,
na certeza da inevitabilidade
do cansaço,
feita imensidão e estilhaços...
Que é dos sonhos? Que é dos laços?

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Julieta...

Imagem retirada daqui
Não sei por que motivo
"acabaste" um dia comigo
deixando-me só...
Se a verdade que me dizes
era sentir, sem matizes,
um amor intemporal...
Paixão e memória
foi sendo pela vida fora,
nosso modo de viver
e padecer a lembrar...
A procura, a espera,
que a vida, qual quimera,
ditou o mote de ser...
Olvidámos a alegria,
recrutámos mais valias
nos rebentos do ser,
a aparecer...
Lutámos para ser feliz,
tal como qualquer aprendiz
de feiticeiro,
verdadeiramente encantado...
Além de Columbina e Pierrot,
somos mais Julieta e Romeu,
sentindo em uníssono,
memórias sem dó...

domingo, 8 de novembro de 2009

Grito silenciado

Faltas sentidas,
nas vazias avenidas,
doentias,
de desejo, de medo
e angústia,
desespero...
Desabafos desolados,
vencidos desajeitados
de enebriados anseios.
Maravilha o encanto.
Mas, no lamento
entretanto anunciado,
bateu a saudade,
num grito silenciado.
Afogados os segredos
nos desvelos do ser
cansado de te não ver,
caminha ensonado,
algemado de pavor...
Que é de mim, que é de ti?!

“Agora que o silêncio é um mar sem ondas, e que nele posso navegar sem rumo, não respondas às urgentes perguntas que te fiz. Deixa-me ser feliz assim, já tão longe de ti como de mim... (Miguel Torga)

Instantes mínimos...

“Escreverás meu nome com todas as letras, com todas as datas, e não serei eu. Repetirás o que me ouviste, o que leste de mim, e mostraras meu retrato, e nada disso serei eu. Dirás coisas imaginárias, invenções subtis, engenhosas teorias, e continuarei ausente, Somos uma difícil unidade, de muitos instantes mínimos, isso serei eu." (Cecília Meireles)

sábado, 7 de novembro de 2009

Flor gifs

“Procuro a poesia certa, como uma roupa na medida exacta, para vestir a minha alma nua.” (Byafra)

chovendo


"Sou feita de vésperas e dias seguintes, da expectativa que a véspera me faz e da realização que o dia seguinte me traz." (Karla Julia)
"Sou o intervalo entre o que desejo ser e o que os outros me fizeram." (Álvaro de Campos)
“Sou entre flor e nuvem. Por que havemos de ser unicamente humanos?” (Cecília Meireles)
“Fossemos infinitos, tudo mudaria... Como somos finitos muito permanece.” (Bertold Brechet)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Sair dos laços

Sair dos laços baços,
(cujos abraços molestam),
num voo picado,
rasgado,
volteando a liberdade,
abandonando o alvo,
e a conformidade.
Fugir. Rumar ao infinito.
À loucura do meu
e do teu grito.
Fugir da saudade.
Amar para esquecer,
reencontrando liberdade.
Quero viver noutro lugar,
noutro ser,
para novo acontecer...

domingo, 18 de outubro de 2009

sábado, 17 de outubro de 2009


Retirado daqui

Ausência de ti

São tantas as saudades
que quase sufoco,
que quase enlouqueço.
É a falta sentida
elevada a infinito.
É a vida rechaçada,
o tempo que veloz,
arruína a esperança,
a ilusão do teu abraço.
A solidão adensa
o ar irrespirável no espaço apertado,
feito górdio laço.
Presa nos esporões da impossibilidade,
nos muros labirínticos da verdade,
penso-te, sonho-te,
numa procura incansável de ti,
de liberdade…

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Paradoxos de ser e acontecer

De estômago embrulhado,
de sentires contraditórios
e ambíguos pensares
escondo-me, de mim,
no inferno do ser
em cada amanhecer.

Encafuar a cabeça
no fundo da areia
esperando que o vento
a afunde, e sem alento,
agonizar,
sem espectadores nem rancores,
seria melhor, aposto!...

Que consciência aflita
duma (desta) vida em desdita,
que desfila, feito fita,
e se amofina,
em contradita sina,
e exangues suspiros
desafiando longos vazios
de ser e acontecer...

E caminha e vacila, e soluça.
E avança sem encanto...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O tempo...

O tempo voa, sem descanso
embora no remanso de ser,
convoque nostalgias
de memórias fugidias
de um tempo por acontecer.
Enquanto esconde, nos silêncios,
os desejos incandescentes,
voa lesto de saudade
e de vontade de viver.
De permeio, desnuda o seio
dos afagos envergonhados,
cristalizados,
na memória do sentir...
Se, quando morrer, puder ter
um momento apenas meu,
quererei pensar de novo
nesses laivos de prazer
sonhando-os num todo,
como estando a acontecer,
ainda e sempre, amor...

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Sou o foi...

Caminhando no arame,
com o coração a trote,
retomando a outra margem,
recomeçando,
puxando o último primeiro fio,
num tormento renovado
de desejo mal amado,
num desafio truncado
de metasteses cinzeladas,
pelos interstícios do ser
disseminadas,
em malignidade e pudor,
sou sedenta de sinais,
de mensagens matinais
que tardam até o sol pôr;
sou triste simulação,
dum querer vago, tardio,
dum sentir insane e frio,
que entorpece o coração;
sou o foi e o perdão...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Despida de emoções

Engoli as paixões.
Contentei-me com as ausências.
Imaginei carícias enquanto
fantasiei jogos de sedução.
Proporcionei consolação.
Prolonguei, prometi-me a lua...
Sujeitei-me a amar distâncias,
a viver embriagada,
embrenhada em exigências de trabalho,
que a um tempo alienam e realizam...
Sou aqui e agora,
despida de emoções,
feita de cansaços,
das ausências dos abraços,
da falta do ombro largo,
recanto, âncora de afagos,
regato balsâmico de laços...

Idealizo favos de mel...

Bem vindos!

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