Amo o que não tenho
O som da tua voz, ao longe,
é desconforme,
qual batente desconexa
e sem sentido,
de cansaço e rouquidão,
de desejo e solidão,
que ou se perde, ou se mescla
de saudade e rendição.
E o vento em desalinho
com desalento soprando,
transporta laivos d'esperança,
brisas de encantamento,
sustento de imaginação.
São lembranças de então,
que se reanimam: ressuscitam.
Revive-se a sublimme paixão,
em passageiras lufadas
de carinho perdição,
num feitiço de emoção.
Num instante de repouso,
os tremores são de gozo,
num ritual de feição
em que sexo e calor
não rimam com amor,
em rotunda solidão.
E ainda assim te evoco,
te anseio de mansinho
no espaço do meu ser,
dentro do meu desatino,
junto ao entardecer.
Quero-te inteiro, pleno,
sem nenhuma restrição,
porque amo o que não tenho,
sem qualquer contra indicação.

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