segunda-feira, 29 de março de 2010

Ousadia...

Apostada no desfrutar
dos pequenos nadas quotidianos,
maria anula a chama,
projectando-se
na trama da saudade,
que na vida reproduz...
Vai olvidando o desejo
que ecoa
na imaginação dum beijo,
claro fogo de paixão
dum puro e eterno enleio,
Amor de seu coração...
E, num ínfimo relampejo,
insiste em se confundir
numa triste simetria
sua veia declarada,
que ousadia,
tão longamente usada,
de envergonhada poesia...

segunda-feira, 8 de março de 2010

Resvala o sentir...

De soslaio olhando o mundo,
destemido, o querer se ensombrece,
frente ao amanhecer em devir
que acontece e desfalece,
sem certeza de futuro...
É a esperança que fenece,
no assombro da labuta.
A obrigação feita dever,
num ter-de-ser incontornável,
exige a anulação do querer,
que se isola e amofina
e se adensa,
numa perda de vontade
do que anima, vivifica.
Sem desespero expectável,
a saudade enclausura,
inflinge dor,
sem limite e sem permuta,
numa descrença infinita...
Resvala o sentir, para o pensar,
e a tristeza explode,
na certeza do querer profundo,
que soçobra à força bruta do mundo,
na fraca esperança dum viver melhor...

Num suspiro de incerteza, compungido,
o real submerge o sonho,
como num acto de contrição...

sexta-feira, 5 de março de 2010

"Deus! Tão ingénua!...
Chega a ser estúpida de ingénua..."

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Demência...

Dormência. Decadência
Fosforescência.
A permanência da ausência,
na urgência do querer,
no desejo e no sentir.
A inteligência na incumbência.
A falência de e do poder.
A aparência de ser.
A ignorância do saber.
A demência: premência.
A insistência: indulgência.
Incoerência inconsistente.
Incongruência. Insolvência...

domingo, 24 de janeiro de 2010

Palavras e tempo

Na música te escondes de dia,
como as palavras (nostalgia),
nos silêncios se concentram,
de tempo e lamentos.
Do tempo das palavras
que se transformam, imberbes,
no deslindar do encontro,
na (consentida) avenida,
de vida e de saudade, vivida.
De tempo com tempo
na presença da memória,
cuja ausência determina a aurora,
do nosso amor, agora.
Celebração de abraços
nos amassos devassos que nos ofertámos,
desejos sedentos,
de esperas e quimeras inebriados.
Alentos que intensificámos.
Palavras ao vento,
poesia e tanto.
E sempre lamentos, palavras e tempo...

sábado, 23 de janeiro de 2010

Rodrigo Leão - Passión


cortesia de www.letras.com.br

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Este é o orvalho dos teus olhos

Este é o orvalho dos teus olhos.
Esta é a rosa dos teus vales.
O silêncio dos olhos está no silêncio das rosas.
Tu estás no meio,
entre a dor e o espanto da treva.
Arrancas-te ao mundo e és a perfumada
distância do mundo.
Chego sem saber, à beira dos séculos.
Despenho-me nos teus lagos quando para ti
canta o cisne mais triste.
O pólen esvoaça no meu peito, junto às tuas
nuvens.
Esta é a canção do teu amor.
Esta é a voz onde vive a tua canção.
As tuas lágrimas passam pela minha terra
a caminho do mar.

José Agostinho Baptista - nasceu no Funchal em 1948

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Encontro encantamento

Soube tão a pouco. Como o doce
que sempre estamos dispostos a repetir,
como a água que devoramos na canícula do estio
ou no sufoco do deserto.
Valeu a infinitude. A medida do mundo.
A certeza do querer, na vontade de ser.
O aconchego na "madrugada" de Inverno.
Renovar, redizer, redescobrir, reviver,
no olhar que enternece,
no sorriso que regala e abastece.
Reduzir a saudade a um esgar, a uma nesga.
Registar o amor, no silêncio, de mãos dadas.
Capaz de energizar cada novo acontecer,
foi nossa entrega: rendição...
Nos interstícios do encontro,
a rescisão da distância,
num placebo encantamento.
Activado o balsâmico odor dos eus,
cujas endorfinas ameaçam revoluções,
conjugámos as línguas, em várias dimensões,
fomos amados amantes até no adeus
(que não foi senão um perene até depois),
numa enfeitiçante presença ausência,
que faz perdurar miríades,
capazes de eternizar ecos, distantes,
sinfonias de sabores estonteantes.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Não te ausentes de mim

Acalenta-me, agasalha-me, ameiga-me,
adoça-me, amima-me, abraça-me.
Sobretudo, não me magoes. Ama-me.
Não deixes que as ausências se instalem,
por muito que o tempo seja curto...
Ata os nós que se estão desatando
na borrasca de um tempo inacessível,
na inclemência do vão que se aperta,
na braveza dos conclaves que se inventam...
Encara o real que se esgota dia-a-dia,
como um manancial de possibilidades
que ao não serem aproveitadas ao milímetro,
apenas corrompem, qual ferrugem,
as estruturas alicerçadas do desejo...
Ameiga-me esta certeza do nada,
este vazio aniquilador do entusiasmo,
esta negretude opaca que sufoca...
Não te afastes de mim, nem pelo silêncio.
O nó que ele provoca, não me deixará respirar.
Não te ausentes de mim, por tanto tempo,
porque me afogo...

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Voar

Esconjuro os limites
do meu querer espartilhado.
No braseiro da minh'alma,
nos interstícios do meu ser,
na membrana da minha consciência,
da minha vontade, ferida,
da minha memória, sofrida,
enxoto, escorraço, afugento
esta tendência abrupta,
intrínseca,
de me sentir menor.
Expulsar este demónio,
ousar ser gente.
Antever na infinita certeza
de me saber igual e sentir princesa.
Afastar, espantar, repelir
o estigma da menoridade
que corrói as entranhas
do meu sentir com insistência
é coragem tamanha de força
e desejo valente
que hei-de conseguir e vencer,
para poder finalmente voar.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Teço teias de fantasias

No etéreo presente do meu diário
reencontro os abraços ora desfeitos,
perpassando nas palavras proferidas.
Teço teias de fantasias,
nos cantos da mansão
em que escondo meus anseios.
Reconheço nos silêncios
apenas cansaços da ausência dos abraços.
E nas desfolhadas páginas brancas,
encontro versos de amor
em espera inventada, desgastada.
No segredo do meu ser transido,
vislumbro-te em cada esquina do meu corpo,
como se fosses mais do que uma ilusão.
Escrevo-me, pincelando penumbras.
Reencontro a fimbria do desejo,
de reconhecer-te real, ainda,
para além do meu imaginário...

domingo, 3 de janeiro de 2010

Apeteces-me...

Apeteces-me. Tanto como o aconchego do leito em que te lembro, como a luz do sol no quente entardecer do estio...

Apeteces-me. Sumarento e fresco, presença forte,enebriante, qual néctar ingerido ao som de MOUSKOURI . Apeteces-me. Tanto quanto uma taça de champanhe saboreado sem pressas, já que o tempo é longo e tanto.

Desalento quando o pensamento te traz saudade e desperta nas curvas do passado o eterno silêncio que brada o sentido e o ser no espaço infinito de um acontecer inventado, se define no sabor dos beijos inesquecíveis que acalento. Memória da minha lembrança de nós.

Espero-te,encostada aos dias, devorando nadas que ora me distraem, ora me levam de novo a ti em passos densos, lentos. Através de MOUSKOURI ainda. E sempre, nós.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Rebeldia d'ilusão

É em cada gota de orvalho deslizante,
em cada teia tecida reluzente,
que os dias cantam anos de silêncio,
que as noites contam a tétrica solidão,
cenas de vida. De hoje. E de então...
É assim em cada instante. De rompante,
na neblina do sentir profundo,
renascendo do âmago do desesejo ardente,
valente, estonteante d'emoção,
o deserto d'um querer eterno,
de lúgubre paixão. Trama inocente,
pintada, dia a dia, d'ilusão...
Pinceladas sorrateiras. Cores fulgentes.
Telas construídas de brumosa fantasia,
em encontros fugídios,
plenos de segrado segredo e atenção,
em cujas mãos se venceram anos,
de fios frios desenganos,
que se extinguiram se unindo...
Redes, laços, filamentos desfeitos
nas noites quebradas de ironia
na esperança de um acontecer,
de um só dia,
vivido ao entardecer,
até ao anoitecer, com rebeldia.
Eis o sonho. Eis a ilusão!...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Outra vez mulher...

(Re)nascida. (Re)vigorada do transe,
(re)tocada no anúncio do novo,
(re)surgiu a salvação:
o sabor de (a) mãe,
o esquecimento da mágoa
na passagem ao além.
(Re)saber-me filha,
também (re)definiu a paisagem,
(re)pintou os reflexos
do ser e do querer.
E, num vislumbre de emoção
(re)encontrei os liames,
juntei as pontas,
fortaleci os nós,
(re)estreitei os laços.
Sou novo argamasso,
moderno espaço. (Re)novado.
Velho espírito (re)visitado.
Eis-me: (re)vivi(ficada), a(ni)mada.
De novo mãe. Outra vez mulher...

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Desaire...

Desaire. Desatenção. Desilusão.
Desencanto. Desalento. Desamparo.
Surpresa: decepção...
Equívoco. Frustração.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Soneto VI

"Todo en mi vida es un presentimiento.
Soy como hoja medio desprendida
Que ya la agita, sin llegar el viento;
Una hoja temblorosa y conmovida.
Amo, sin verla, clara imagen pura;
Y mis ansias, mi angustia y mi tristeza,
Sólo escupen y buscan en la dura
Realidad de la vida a la belleza.
Yo sabré quién espera y quién llama,
Animando el misterio y escondida,
Cuando esta fiebre que a mi ser inflama,
Ciña, por fin, la forma apetecida.
De amor humano hacia el amor divino,
Voy labrando, sin tregua, mi camino."


Pedro Prado
POETA CHILENO

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Arritmias de inverno

Dolente, na demência insane
do corrupio natalício,
espreito as horas
na azáfama do tempo que corre
e se esconde, em transe,
no frenesi stressante dos ponteiros,
do relógio, seu amante,
qual querer esvoaçante
que se envolve de rompante,
e se escusa acontecer...
Sorri o tempo na desgraça
da soleira do seu casulo.
E impune, sem arte, passa,
devagar e com chalaça,
inane ou desatento,
largando as âncoras ao vento,
ao largo, num instante,
em descargo de consciência...
Sai de mansinho o matreiro,
desdenhoso e zombeteiro,
trajando desusado fato,
escondendo as fantasias
tornadas então agonias,
de exuberante repasto,
num inferno de desgaste.
Ah como são duras e frias
estas invernosas arritmias...

Que é dos sonhos e dos laços?

O vento perpassa lesto,
em redemoinhado desacerto.
Fraquejo.
Há desalento no esconso ser
da espera, vazio.
Anseio o beijo que ateie a chama,
ressurgindo dos escombros,
das esperanças vãs,
qual fénix renascida,
em todas as manhãs,
formosa.
Desperta pela aurora
no berço das horas,
no silêncio das sombras,
lamentos...
Perdida a ilusão,
com o ego no chão,
a verdade da vida afirma-se,
na certeza da inevitabilidade
do cansaço,
feita imensidão e estilhaços...
Que é dos sonhos? Que é dos laços?

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Julieta...

Imagem retirada daqui
Não sei por que motivo
"acabaste" um dia comigo
deixando-me só...
Se a verdade que me dizes
era sentir, sem matizes,
um amor intemporal...
Paixão e memória
foi sendo pela vida fora,
nosso modo de viver
e padecer a lembrar...
A procura, a espera,
que a vida, qual quimera,
ditou o mote de ser...
Olvidámos a alegria,
recrutámos mais valias
nos rebentos do ser,
a aparecer...
Lutámos para ser feliz,
tal como qualquer aprendiz
de feiticeiro,
verdadeiramente encantado...
Além de Columbina e Pierrot,
somos mais Julieta e Romeu,
sentindo em uníssono,
memórias sem dó...

domingo, 8 de novembro de 2009

Grito silenciado

Faltas sentidas,
nas vazias avenidas,
doentias,
de desejo, de medo
e angústia,
desespero...
Desabafos desolados,
vencidos desajeitados
de enebriados anseios.
Maravilha o encanto.
Mas, no lamento
entretanto anunciado,
bateu a saudade,
num grito silenciado.
Afogados os segredos
nos desvelos do ser
cansado de te não ver,
caminha ensonado,
algemado de pavor...
Que é de mim, que é de ti?!

Bem vindos!

Arquivo do blogue