domingo, 17 de maio de 2009

GAIVOTA

Gaivota



Retirado de www.myspace.com/amaliahoje

Ruiu o sonho...

Meu coração inclina-se
para o frio matinal
que se afirma,
no cansaço das palavras.
Atiradas de arremesso,
cruas, inesperadas,
foram punhais,
mais que pedras banais
ferindo de morte
o norte expectante,
num mote dançante,
de um sonho sedutor
que quis indolor.
Moribundo este querer,
desata outros nós,
então aprisionados...
A dúvida chegou logo,
e a confiança esbarrou
na muralha das palavras,
pela crueza do dizer,
na secura do agir,
com descrença no sentir,
sem certeza do querer,
ruiu o sonho,
confunde-se a vida,
perdeu-se a esperança.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Projecto ser mulher/ser melhor

É por me sentir desejada
que eu desejo tua presença,
na ausência das minhas memórias,
no sossego do meu quarto,
no silêncio do meu lar,
no vazio do meu ser.
E o desejo, esse,
enche o vácuo,
o leito do meu querer,
e incendeia com o vento,
este espaço cavo meu,
projecto de ser mulher,
desejo de ser melhor.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Arco-Irís Desfeito

Idiota, sim! Porque acreditei,
no eco de um amor distante,
que vislumbrei,
vivo, presente, excitante...
Há mágoa no léxico emocional
das ilusões mal geridas,
de negociações falhadas,
de referentes perdidos,
de sonhos incompreendidos...
Há mágoa no sentir violento,
no vazio que ficou
dum desejo mal contido,
dum rio que já secou...
Do nada, surge o silêncio.
Irrompe descontrolado,
de distâncias indomáveis,
de contextos inabaláveis,
de ausências incontornáveis.
Vem de mansinho a suspeita
que à mingua de falar,
já não tem assunto
e sorrateira, já espreita,
como um tormento,
com ganas de rompimento...
O soluço aperta o peito
num arco-irís desfeito,
num desencantado lamento.
Entrecruzam-se as dores,
pontilham-se os desamores...

sábado, 9 de maio de 2009

Um poema - Eugénio de Andrade

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.

Eugénio de Andrade
(Retirado do Bolgue Amor + Energia = Equilíbrio)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

memoria

memoria
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sexta-feira, 17 de abril de 2009

Desatino insuportável

Violentado em cada instante,
num sufoco mal contido,
num grito silenciado
na história dos filhos,
irrompe,
no ser dilacerado
a angústia depressiva
envolta em indiferença,
levemente suposta,
manifesta em sentença...
Encolhido num corpo nu,
desbotado e amarrotado,
confunde-se o ser
num cru parecer...
Irremediável padecer
que em cacos implode
e em fragmentos comove
as áreas do seu condado,
as veredas do casão.
Estilhaços escaqueirados
de desejos maltratados,
em infindável tentação,
uma fuga mais que abrupta,
desta vida devoluta,
de estranha solidão.
Má escolha? Punição
que tolhe e embaraça,
pela falha que ameaça,
sofrimento, desrazão...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Estranha lucidez

Sei-te nas veredas do mau(meu?) tempo,
apesar de ensolarados desejos
de permanecer esperança.
Neste espaço nu,
carente de aconchego,
(re)visito-me vestindo arrogância,
e num desvelo de maturidade,
transpiro laivos de fraqueza
imbuídos de espontaneidade.
Autênticidade? Não. Não sei...
Talvez apenas fugacidade do ser
que em pleno amanhecer
desfalece de saudade
e se afunda em vontade de mudança...
Escolhi esta vida, em tempos.
Hoje odeio ter de a viver
confrontada comigo mesma,
e com os ecos
da minha memória, insolente.
Cegueira. Surdez. Demência(?)
Estranha lucidez, vã glória
de caminhar direita ao abismo,
guiando-me sobre o fio da navalha,
em busca de um mar acolhedor:
sereno na sua imensidão,
forte para o meu desnorte...

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Frases para pensar

A falta de tua fragrância

Podiam ser versos de amor
de paixão, de sedução,
versos de amor
sentido, vivido
num instante, decisão.

Nesses versos de amor,
cantados em noite escura
de insónia e desejo,
de loucura intemporal
na saudade que perdura...

Versos de amor que quis
muito além da decência,
mais do que à dignidade,
mais do que à vida,
num acreditar de inocência.

Versos de amor que chorei,
numa culpa de ignorância
de nua prepotência,
face ao imenso silêncio
à falta de tua fragrância...

segunda-feira, 23 de março de 2009

Pura magia

Na asa esquerda
como se fora um implante,
a pureza do sentir,
a alegria de ser,
aquela asa conserva,
como se fora um implante,
a certeza do amor...
E na asa da direita
a certeza rarefeita
de um imenso turpor
que o coração enfrenta
num certo entardecer
que te trará sem rodeios
e me deixará anseios
de te saber para mim...
E, ao centro, a maresia,
a estranha sinfonia
de uma paixão pueril
que deseja a cada dia
uma vida diferente,
um azul tranquilizante,
dum sonho, pura magia...

domingo, 22 de março de 2009

Infância revisitada

Valho como ser que ama
mais do que como ser que pensa.
Valho para a realização imensa
da viva chama incandescente
que em meu peito acendeste,
alimento de um viver
cuja simplicidade reclama
o sonho de ser mulher...
Denotando-se a esperança
dum profundo querer,
profuso amanhecer de luz,
bendita alma distinta,
sonhada na genética do meu ser,
no silêncio do meu eu,
no eco da minha memória simples
da infância "revisitada",
estagnada, ingurgitada.
Infame absinto:
Metáfora de um labirinto medonho...

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Princípio


"Não tenho deuses. Vivo
Desamparado.
Sonhei deuses outrora,
Mas acordei.
Agora
Os acúleos são versos,
E tacteiam apenas
A ilusão de um suporte.
Mas a inércia da morte,
O descanso da vide na ramada
A contar primaveras uma a uma,
Também me não diz nada.
A paz possível é não ter nenhuma".


Miguel Torga, in 'Penas do Purgatório

Viagem

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…

(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga, 1962

domingo, 15 de fevereiro de 2009

"Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.
Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há, de certeza, duas folhas iguais.

Limbo todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
baínha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.

Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.

Nas formas presentes,
nos actos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.

Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam
nas dobras do vento.

É dessas que eu sou."


António Gedeão, Poesias Completas (1956-1967),
Lisboa, Portugália Editora, 1975, 5.ª ed.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A magia da semântica

São afagos delicados
frémitos doces,
sussurros melaço,
esses magros pensamentos,
são mensagens que o vento,
transporta enlaçado
nas cristas do tempo,
para mim, de ti,
feito norte friorento.
Concebes e envias
tamanhas doçuras
em letras esguias,
de saudade e ternuras,
impressas no branco,
das folhas virtuais,
soltas ao relento,
em avenidas transversais,
a coberto do mar.
São palavras de encanto
impedlndo-me a amar.
Recebo-te e enleio-me
na magia da semântica
que me embriaga e me alenta...

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Desejo que fluiu

Banalizado, o amor,
no sentir de pressões,
na ausência de palavras,
em estravagâncias...
São parábolas de esperança,
as notícias estonteantes,
em valores implícitos,
interiores deslumbrantes,
na insegurança do nada,
na efeverscência da espera,
no luto da quimera
de um em dois que se intuiu.
Valência que se esgota,
num desejo puro que fluiu...

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Saudades II

Saudades do tempo
E de outrora.
Do sabor da vida,
Nu, fresco sumo d’amora.
Chocolate quente,
Canela e sol ardente…
Sorriso largo, faminto
Espreitando a primavera.
Saudade de amante
No ventre da espera.
Silêncio retumbante,
Numa praia distante,
De insane quimera.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Desejo de nada ser

Esqueço os momentos mais apetecíveis
distanciados pela densa solidão presente,
associada à desilusão
de me saber e sentir coisificada.
Engulo silêncios com esforço,
aguento a ausência mascarada
de palavras desgastadas fugidias,
vazias de sentido e de sabor...
Lambo-me os destroços retocados,
num uivo disforme de pavor,
de afectos recusados, mal amados...
Liberto a augústia em soluço longo,
num cristalino lençol humedecido
de emudecido sentir oprimido,
desejo de nada ser, destemido...

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Retalhos de experiência

Nevoeiros emocionais
Universo privatizado,
Amontoado,
Atolado na memória.
Frustração,
Obscurecimento,
Obstrução.
Fascínio,
Vertigem inviolável,
Previsibilidade.
Absorção,
Ritual:
Fio do discurso;
Tecelão de esperança.
Incauta,
Inquietante inquietude,
Identidade: retalhos de experiência

domingo, 4 de janeiro de 2009

Espaços de ser

Desejos profundos,
de beijos devassos,
nos esparsos amassos,
em apertados enlaços...
Cansaços vivaços
de telúrica paixão.
Razão de viver,
sonhos de melaço...
Vazão de amor,
litanias,
embaraços,
esvoaços de passos...
Sons. Afagos de tons:
longos espaços de ser...

sábado, 3 de janeiro de 2009

Quero voar

"Quero voar
-mas saem da lama
garras de chão
que me prendem os tornozelos.

Quero morrer
-mas descem das nuvens
braços de angústia
que me seguram pelos cabelos.

E assim suspenso
no clamor da tempestade
como um saco de problemas
-tapo os olhos com as lágrimas
para não ver as algemas...

(Mas qualquer balouçar ao vento me parece Liberdade.)"


José Gomes Ferreira

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Devaneio...

Desencanto da vida
pela diáspora vivida,
desnuda de presença,
saudosa de concreção,
lamento de condição,
angústia de sentimento,
enredo de indecisão,
desejo de entrega,
anseio de liberdade
devaneio consolação...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Apontamento...

Noto que tudo vai ficando no limbo do depois ou do entretanto, num processo em aberto que escapa tanto à concretização como ao sentido da vida, da existência...

O desejo apaga-se nos silêncios, nas esperas, nas demandas, nos esquecimentos... Esvai-se por entre o presente e a falta, o imperativo e a ausência, a premência e a distância...

O sonho desmantela-se e aperfeiçoa-se na desconstrução inconsciente da fantasia que se esboroa e contamina em laivos de um erotismo renovado e insatisfeito.

É um fado que enfada e entedia os espaços mirrados do existir vagabundo que, sem lei, se emoldura em demência progressiva e espasmódica de contorções orgásticas, corpóreas, que retemperam e destroiem, numa agonia galopante, oprimente...

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

sábado, 6 de dezembro de 2008

Entusiasmo II

Foi assim, há dois anos atrás Como se pode ler , nesta mesma data...
Faz hoje anos. Apenas dois anos...
Mas, as vivências, as experiências,
os pensamentos, os sentimentos,
as inquietações, as dúvidas,
os desafios (...)
Foram sulcando,
encantando e desencantando,
foram fazendo das suas...
E, hoje, eis-me de novo vontade e coragem...
Ainda que magoada, ainda que com menos esperança.
Mas, com a alma cheia da certeza de que vale a pena ser.
É com entusiasmo ainda que agarro os dias e às vezes os deixo ir...
É com entusiasmo ainda que me ultrapasso e às vezes socumbo às avalanches...
É com entusiasmo ainda que canto a vida em cada mensagem...
É com entusiasmo que me descubro ainda criança em cada manhã...
É com entusiasmo redrobado que me escuto e me escondo...
É com entusiasmo que vivo a vida em cada instante...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Está frio, muito frio...

Está frio, um frio trémulo...
É Dezembro no seu melhor,
preparando o Inverno, com rigor,
num prognóstico inexoravelmente gélido.
Chove ininterruptamente, amor.
A chuva glacial enregela o corpo
fazendo entorpecer, no íntimo,
o espírito que se refugia, louco...
A noite escura e fria,
está numa sinistra agonia.
É o sombrio sentimento
de um lá fora, cá dentro,
sem luz nem aquecimento...
O dia escondeu o ser,
numa consistência molhada,
desconfortável, oprimente,
subjugando laivos flamejantes,
de um sol recôndito, clandestino,
de devotos e tristes amantes...
E, o amanhecer, prestes a nascer,
traz no seio dolorido,
o vazio luzidio do pedraço...
O gelo açambarca o tempo,
no pulsar húmido e lento,
da noite transida, insatisfeita,
em decadente e torpe maleita...
E a frialdade da hora derradeira,
transporta, zurzindo, o vento
que pelas frestas da manhã,
desenvolve tristes sentimentos,
de lúgubres almas geladas,
laçando-as de frias mágoas
e de profundos desalentos...

sábado, 29 de novembro de 2008

VIII - Quase

"Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além
Para atingir, faltou-me um golpe de asa ...
Se ao menos eu permanecesse aquém ...

Assombro ou paz ? Em vão ... Tudo esvaído
Num grande mar enganador d´espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor ! - quasi vivido ...

Quasi o amor, quase o triunfo e a chama,
Quasi o princípio e o fim - quasi a expansão ...
Mas na minh´alma tudo se derrama ...
Entanto nada foi só ilusão !

De tudo houve um começo ... e tudo errou ...
- Ai a dor de ser-quasi, dor sem fim ...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou ...

Momentos de alma que desbaratei ...
Templos aonde nunca pus um altar ...
Rios que perdi sem os levar ao mar ...
Ânsias que foram mas que não fixei ...

Se me vagueio, encontro só indícios ...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos d' heroi, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios ...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí ...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi ...


Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe d´asa ...
Se ao menos eu permanecesse aquém ..."


Paris 1913 - maio 13
Mário de Sá-Carneiro
Poemas Completos
Edição Fernando Cabral Martins
Assírio & Alvim 2001

domingo, 9 de novembro de 2008

Meu anseio...

Meu anseio, liberdade,
chegou célere de verdade,
na certeza do amor
primeiro e único,
perdido na vaguidade
do ser,
reencontrado na esssência
dum amanhecer mais pleno,
no fresco alvoroço
da minha estrela d'alva,
manifesta prenda,
desta insólita alma...

sábado, 1 de novembro de 2008

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Era eu contigo, sem ti...

Ignóbil pertença,
que na ausência silencia
o sentir,
feito devir de ser...
Indigno penar
que num louco desejar
se manifestou,
sem decência,
sem lei...
Era... Eu contigo, sem ti...

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Quis Deus...

Quis Deus que hoje,
ainda fosse um amanhã,
deixando passar a horda
que me ia atropelar
(foi por um triz e estaria morta).
De seguida, senti que a vida
não se deve desperdiçar,
com rebuliços de amar;
Senti que mais vale aproveitar,
se o sol quer brilhar;
sentir o vento se ele quer ventar;
a chuva se tem de diluviar;
Os instantes em que comigo estás
e o tempo em que sonhas comigo estar...

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Encanto Desencantado

Desencanto. Desilusão. Degenerescência.
A descrença na humanidade, no homem complemento...
Há franqueza nos simples e puros afectos,
sem chãos, nem tectos, nem teias ou cadeias...
São meus pensamentos discernidos,
de memórias concebidos em aromas,
das ameias de castelos d'areia,
suspensos em desejos, sem lamentos...
Recuperar ideias bizarras,
ser o mesmo, sendo outros,
sem grandes ironias, de amarras arredias...
A distância da paixão inglória,
de tempos idos, famintos,
memória triste de insanes galanteios,
que se perdem em gorjeios
de desalentado querer...
É o desalinho dum amor perdido,
num cobarde saber sem sentido
em ignóbil padecer apaixonado,
tão profusamente magoado.
És já tão ténue, meu encanto,
já tão desencantado...

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Quem me dera...

Se ao passar uma esponja mágica,
pudesse fingir que tu eras outro,
e isso resultasse em profunda amnésia,
era como estar, ao teu pescoço presa,
dançando enleada em teus braços,
unidos, teu corpo no meu,
feito uma alma só,
cientes dum único viver,
cativos dum eterno olhar...
Vislumbro essa união de facto
com outro, não contigo...
E, sem amnésia, pressinto
a certeza de um sentir mais grato,
pleno de amor e realização.
Quem me dera poder esquecer-te,
na urgência deste desejo
que me enebria e entontece
e me mostra, de soslaio,
que um amor primeiro, permanece,
jamais se esquece...

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Um corpo em transgressão

Não te queria interposto,
ali especado,
num riso escancarado,
olhando-me sedutor,
ciente da devastação
que provocas,
meu encanto avassalador...
Queria ser outra vez menina,
voltar à memória traquina
do meu primeiro amor
e sentir sem preconceito,
que este desejo no peito,
tem em tudo mais valor...
Mas não. Tu não desandas
e manténs sem qualquer razão
tua presença/distância
na fresta que foste abrindo,
neste meu pobre coração...
E os dois engalfinhados
em teias de ilusão,
desfazem minha sanidade
em lufadas de intenção
despedaçando a identidade
do meu corpo em contra mão.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Largo-te ao vento

As tentatavias, mais que muitas,
socumbiram,
tornaram-se poeira,
poderiam ser poalha,
mas apenas poeira insignificante,
grãos de pó infelizes,
pobres na solidão constante,
nos desacertos falantes,
desta paixão infeliz.
Deixo-te largando-te ao vento
até que, em tormento,
te lembres do sofrimento
e das promessas em vão
que fizeste em segunda mão.

Silêncio Apenas

Volatilizaste-te.
Deixaste o silêncio,
o desencanto assustador,
de não poder saber-te,
de não mais saborear-te.
Por um fio, perdi-te,
sem justificação,
olvidando consequências...
Mais uma repetição
de um episódio rotineiro
na vida em questão,
que me arrepia e aniquila.
Quanta ilusão e ingenuidade.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Travessias tempestuosas...

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os caminhos, que levam aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos".(F.P.)

- Quero abandonar as roupas usadas: deixar-me ir sem cativar e ser cativada... Quero não perder nem lutar mais... Quero esquecer, voltar costas, ultrapassar... Mas, como?

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Quem me dera...

A vontade passou a desilusão,
fruta madura sem ter pão,
sem palavras de sossego ou ilusão,
com silêncios de arremedo e escuridão.
Tenho ganas de me esquecer,
de virar o mundo e no avesso, retroceder,
encantando clareiras e framboesas,
de sons distantes e zombeteiros,
sem o alarido da água no braseiro.

Quem me dera ser um pensamento teu,
introduzido nas rotinas do teu ser...

terça-feira, 2 de setembro de 2008

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

sábado, 30 de agosto de 2008

Carly Simon

Coming Around Again

Qué hiciste

Qué hiciste

Ayer los dos soñabamos con un mundo perfecto
Ayer a nuestros labios les sobraban las palabras
Porque en los ojos nos espiabamos el alma
Why la verdad no vacilaba en tu mirada
Ayer nos prometimos conquistar el mundo entero
Ayer tú me juraste que este amor sería eterno
Por que una vez equivocarse es suficiente
Para aprender lo que es amar sinceramente
¿Que hiciste? Hoy destruiste con tu orgullo la esperanza
Hoy empañaste con tu furia mi mirada
Borraste toda nuestra historia con tu rabia
Why confundiste tanto amor que te entregaba
Con un permiso para asi romperme el alma
¿Que hiciste? Nos obligaste a destruir las madrugadas
Why nuestras noches las borraron tus palabras
Mis ilusiones acabaron con tus farsas
Se te olvido que era el amor lo que importaba
Why con

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Chamo-Te

" Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que não quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.
"


Sophia de Mello Breyner Andresen

Hei-de querer lembrar-me de ti

"Carpe Diem" quer dizer "colha o dia",
aproveite o dia, o melhor que possa e saiba.
Mas no meu presente,
quando sinto a tua ausência,
e o dia se esfuma na bruma do ser,
invento-te em cada instante a decorrer
nos dias da minha vida.

Vejo-te quando na saudade,
invento a tua presença,
no silêncio do acontecer,
no sorriso do viver.
Não o presente ausente,
sim o ausente presente
em cada instante sentido,
vivido, lembrado, amado.

Ao lembrar,
soltei a saudade,
desatando o orvalho,
da falta de ti,
da tua ausência silenciada
no dia a dia da minha vida.

E, ao lembrar, sorri
a doce ilusão de me saber
querida,
de me sentir acrinhada.

É essa lembrança que me anima,
que me faz viver a vida,
me permite "colher o dia"
em cada potencial manhã
que se estende ao entardecer...

Hei-de querer lembrar-me de ti
assim terno e meigo,
sedutor e seduzido,
pleno.
Mas também insatisfeito e solitário.

sábado, 2 de agosto de 2008

Vazio instalado

Eis o vazio instalado
sempre que me (re)penso,
quando me investigo
e instigo o meu ser
a esconder o sentir,
o acontecer, mentir.
O alvorecer, esse
tarda em surgir.
Caminho por entre a vida,
por escolhas (im)possíveis,
em percursos confusos,
turtuosos,
por veredas sinuosas,
obstruídas, fodidas...
Caminhando,
faço o destino acontecer,
distando do encanto,
que me enfeitiçou,
ao entardecer.
Há tanto vazio no tempo,
que se me escureceu o ser...

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Partir...

Se pudesse abandonar o barco,
partir,
num qualquer amanhecer,
ou dourado entardecer
e encontrar-te então,
pleno de emoção
e livre, de peito são,
num vão de qualquer ombreira...
Poderia ser essa a maneira
de me desnortear,
de me reinventar.
Avivaria minha paixão,
que envolta em ilusão
de encanto perdição,
dia a dia me aniquila,
me anula maltrapilha,
feito uma pobre mendiga,
de sentido,
de sabor a sal, a mar...

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Amor

"Quando encontrar alguém e esse alguém
fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos,
preste atenção: pode ser a pessoa
mais importante da sua vida.

Se os olhares se cruzarem e, neste momento,
houver o mesmo brilho intenso entre eles,
fique alerta: pode ser a pessoa que você está
esperando desde o dia em que nasceu.

Se o toque dos lábios for intenso,
se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem
d'água neste momento, perceba:
existe algo mágico entre vocês.

Se o primeiro e o último pensamento do seu dia
for essa pessoa, se a vontade de ficar
juntos chegar a apertar o coração, agradeça:
Algo do céu te mandou
um presente divino: O AMOR.

Se um dia tiverem que pedir perdão um
ao outro por algum motivo e, em troca,
receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos
e os gestos valerem mais que mil palavras,
entregue-se: vocês foram feitos um para o outro.

Se por algum motivo você estiver triste,
se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa
sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas
e enxugá-las com ternura, que
coisa maravilhosa: você poderá contar
com ela em qualquer momento de sua vida.

Se você conseguir, em pensamento, sentir
o cheiro da pessoa como
se ela estivesse ali do seu lado...

Se você achar a pessoa maravilhosamente linda,
mesmo ela estando de pijamas velhos,
chinelos de dedo e cabelos emaranhados...

Se você não consegue trabalhar direito o dia todo,
ansioso pelo encontro que está marcado para a noite...

Se você não consegue imaginar,
de maneira nenhuma, um futuro sem a pessoa ao seu lado...

Se você tiver a certeza que vai ver a outra
envelhecendo e, mesmo assim, tiver a convicção
que vai continuar sendo louco por ela...

Se você preferir fechar os olhos, antes de ver
a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida.

Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes
na vida poucas amam ou encontram um amor verdadeiro.

Às vezes encontram e, por não prestarem atenção
nesses sinais, deixam o amor passar,
sem deixá-lo acontecer verdadeiramente.

É o livre-arbítrio. Por isso, preste atenção nos sinais.
Não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem
cego para a melhor coisa da vida: o AMOR !!!"

Carlos Drumond de Andrade

Encontrei, meu amor, o teu amor.
E o tempo, e a loucura quotidiana,
e o "statusquo" fizeram-me perdê-lo,
perdendo-te, sei lá por quanto tempo...

segunda-feira, 28 de julho de 2008

A falta empolada

Desafio provocado, obstinado,
confrontando o passageiro,
momento certeiro de ser
vanglorioso, distinto alvorecer.
Sentido nos sentidos
dos antipodas razoáveis,
de emoções antagónicas,
em riscos incontrolados,
expectantes de sentir,
loucos de ilusão.
Agora o vazio inscrito,
a ausência confirmada,
a falta empolada,
o desespero da saudade.

sábado, 26 de julho de 2008

O teu abraço amasso

Um teu abraço
e nele o espaço
de aconchego,
de partilha,
de descanso.
No encontro do peito
o sabor do beijo,
o aninho do desejo,
o segredo do amor,
num amasso lasso
em descompasso,
vago, longo, manso...
Doce mel,
afago mágico,
sabor a pele,
a mais de ti, em mim,
num peito cheio,
num cheiro marfim...

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Um dia...

Um dia, faz tempo, fiz escolhas, em consequência do meu encanto por ti e do encantamento que foste para mim. Desde então envolvi-me num sonho, reagi ao convite expresso de ser, de voltar novamente a sorrir com plenitude, pela partilha a dois de um mesmo encanto, de uma chama feita lume especial, de cumplicidades e vontades tão ternas, assim mesmas verbalizadas e em aberto, ricas de sentido...

Um dia, aceitei a proposta e vivi o sonho, o teu encanto e o meu encantamento, a esperança de um dia poder ser mais do que um sonho. De um dia (ainda que longínquo), poder ser verdadeiramente eu, inteira, real, verdadeira...

Um dia, passado algum tempo, senti um mundo de frustrações, um enorme desencanto perante o que, sem compreender, se foi desmoronando, entretanto...

Mesmo assim não deixei de sentir o (intenso) sentimento que tanto despedaçou o quotidiano em que me fui arrastando, umas vezes desfeita, outras mais resignada admitindo que seria necessário passar por várias provações que no entanto, eram cada vez mais difíceis de suportar...

Hoje tenho dúvidas sobre a vida, a chama, o encanto, o sonho, a felicidade, a verdade...

Sei que os mas e os ses são intensos, de tão vorazes, de tão insurdecedoramente presos à sedução, ao desejo!...

Hoje ainda blasfemo quando te penso e desejo e descubro que tens tempo para tudo, ou melhor, quase tudo...

Sinto que não vale a pena sentir, esperar, confiar, acreditar... Afinal, parece que nada mais vale a pena...

Foste o príncipe deste meu recanto... Mas (e eis Mais um Mas, do tamanho do mundo que nos separa), penso (sinto) que não estás vivo...

Sofro por ter-me envolvido, por ter-me encantado, por te dar valor...
Quanta desilusão eu lamento!... Quanto lamento tamanha frustração...
Quanto lamento!...

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Para Ti

«Volta até mim no silêncio da noite
a tua voz que eu amo, e as tuas palavras
que eu não esqueço. Volta até mim
para que a tua ausência não embacie
o vidro da memória, nem o transforme
no espelho baço dos meus olhos. Volta
com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário
vestido com a mortalha da névoa; e traz
contigo a maré da manhã com que
todos os náufragos sonharam.»


in «O Movimento do Mundo», Poesia Reunida 1967-2000
por NUNO JUDÍCE

ÉCLOGA

"Encontrei o segredo, a chave de vidro
das palavras que escrevo; e tenho medo.
Talvez nos campos imensos, onde o lírio floresce,
na margem de rio que abriga, de manhã cedo,
os teus pés de ninfa, num engano de idade,
me tenhas visto à sombra de um rochedo;
e se os teus lábios, entreabertos num torpor
de romã, me tocaram num sonho bêbedo,
deles só lembro, imprecisos, fluxos
de incêndio numa hipótese de amor."

in «A Partilha dos Mitos», 1982
Por Nuno Judíce

SE...III

"(...) fazemos o que sabemos
mas não sabemos de todo o que fazemos.
Se tivéssemos sabido mais ou melhor
é de supor que
teríamos actuado de outro modo."
(Savater)

Não posso duvidar desta sentença.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Quero...

Quero ver. Quero ser.
Quero estar. Quero amanhecer.
Quero viajar.
Quero aprender a sonhar,
e viver.
Quero...
Quero cantar.
Quero mudar
e rejuvenescer.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Eras tu e eu...

Atar os sentimentos,
nas veredas percorridas
com desejos esconsos,
indiferentes ao bulício,
do avanço da manhã...
Desatar a saudade
na vizinhança segura,
escondida nos sussurros
das lembranças ofuscas,
nas desculpas inventadas,
nos interesses matreiros,
das vencidas carícias,
anónimas, descritas...
Desassossego no peito,
tristeza na mente
atitude de coragem valente,
recomeçando de novo,
do nada,
instante presente,
na distância ausente,
pleno e ofuscante
de ser e fazer...
Eras tu e eu,
mas eu não serei mais...

Mudanças/Andanças

Descobri que existe um Blog no Sapo que tem este mesmo nome, ENFARPELADASOCUMVEU. Então este meu diário passará a chamar-se: NUASSIMESMO

Caminhar sem destino...

Não há mágoa
que o tempo não cure.
Apenas não sei,
porque teima,
meu coração,
em sussurrar teu nome,
em lembrar teu encanto,
em chorar tua ausência...
Quero viver sem lei,
partir para outra,
caminhar sem destino,
fazendo em cada segundo,
um percurso: o meu caminho...

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Que a vida me seja pródiga de ti

Na ternura que a lua me devolve,
pelo lago claro e liso que reflecte,
a serenidade do afecto bem profundo,
suspenso, quedo e mudo para o mundo.
Eis-me ainda presa, mas já livre,
repetindo o percurso da saudade,
palmilhando terras e segredos,
cantando prosas e plantando medos,
sempre que te lembro amor verdade.
Queria ver-te mais do que em sonho,
poder docemente afagar minha memória
encantar-me ao encantar-te,
num encantamento mágico, risonho,
soletrando as letras do teu nome,
na certeza de te saber sentir glória.
Queria as tuas nas minhas mãos,
assim presas sem correntes vãs,
de coração pleno e presente dádiva,
desejo emoção, significados, gratidão,
amor bálsamo de livre condição.
Que a vida me seja pródiga de ti,
num dia de cheiro intenso a jasmim,
mesmo que esse seja somente o meu fim...

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Ainda e sempre...

Se a vida me permitir,
viverei este sentir
ainda e sempre,
num registo, previdente,
em loucura, diamante,
sombra, segredo gritante,
de sorriso contagiante,
de sereníssimo contraste,
mas grandioso engaste.

És e serás sempre assim,
minha saudade jasmim,
memória d'encantamento,
paixão e deslumbramento.
Amar-te-ei eternamente,
com gratidão expectante,
meu amante reticente...

Tenho o coração nas mãos,
meu pássaro de arribação...

Retrato em Branco e Preto

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cór
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar, tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retrato
Eu teimo em colecionar
(...)
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração


Chico Buarque, Tom Jobim

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Ser senhora de tuas marés

Há quanto tempo
não digo que te amo?!
Já vai alta a lua
que nua,
mostra o seu ventre,
prazenteira,
prazeirosa,
tão airosa,
por ser matreira.
Sublime,
na sua platinada euforia,
por ainda não ser dia,
por esconder a magia
da sedução que me impele.
Sedutora e seduzida,
aspira um dia na vida,
ser senhora,
de tuas marés.

domingo, 6 de julho de 2008

A Um Ausente

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
(...)

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Ansiedad



Nat King Cole

terça-feira, 1 de julho de 2008

Pudesse eu ...II

Pudesse eu,
minimizar o sentir,
esconder o desejo,
controlar a emoção,
mudar a distância;
Volver criança,
sonhar de novo,
escutar a canção,
viver o "suspense",
no reencontro fatal:
"No me abandones así...";
Soletrar o encontro,
aceitar expor-me
para dizer-te:
"Regresa a mi...";
E (re)viveria
outro modo de ser,
outro encanto conhecer,
outro mundo saber...
Pudesse eu...
E tu?...

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Sentimentos são pássaros em voo

«Somos donos de nossos actos,
mas não somos donos de nossos
sentimentos;
Somos culpados pelo que fazemos,
mas não somos culpados pelo que
sentimos;
Podemos prometer actos,
não podemos prometer sentimentos...

Actos são pássaros engaiolados,
Sentimentos são pássaros em voo.»

Mário Quintana

quarta-feira, 25 de junho de 2008

poetas andaluces

Sentimentos são pássaros em voo

«Somos donos de nossos actos,

mas não somos donos de nossos
sentimentos;

Somos culpados pelo que fazemos,

mas não somos culpados pelo que
sentimos;

Podemos prometer actos,

não podemos prometer sentimentos...
Actos são pássaros engaiolados,

Sentimentos são pássaros em voo.»

Mário Quintana

Como consentir a vida?

Pré ocupações são disfarce
da saudade valentia
com que enfrento a vida,
envolta em cobardia,
em tristeza maresia
de soluço, rebeldia...
Como ultrapassar a mágoa,
desilusão ventania,
deste coração desfeito,
desta louca nostalgia?...
Como suportar o dia
sem desejo ou desafio
sem a chama, melancolia?...
Como consentir a vida?

segunda-feira, 23 de junho de 2008

E... (II)

E se pudesse ainda em cada silêncio,
encontrar a mão que me salvou,
da desdita de me saber perdida,
numa nuvem d'ilusão que se finou,
seria ainda a mesma ingénua flor
acreditando em ti, meu grande amor,
e em cada sorriso que reflectia,
a verdade de uma fantasia,
que queria então, tanto quanto tu.

Acerca-te a mi...



Rodrigo Leão

sábado, 21 de junho de 2008

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Deslumbramentos

E o tempo resvala por entre os dedos,
escoa-se feito lânguido sussurro
bafejante de carícias expectantes,
convidativas, sedutoras, contagiantes.
Encantamentos sublimes,
veículos de magias envolventes,
em mimos e afagos surpreendentes.
Nem os silêncios escamoteiam
os sonhos mais profundos bordejantes,
de esperanças crentes e fecundas,
nas certezas deste sentir tão confiante.
Deslumbramento, puro desejo de ser,
intenso anseio de amar, convictamente,
a procura em ti, da vida e do saber.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Como te hei-de esquecer?

Na lástima da desdita
que se adensa,
na certeza
do silêncio que levita
do esquecimento,
no afastamento,
da distância contradita,
que sem ti vacila
e desata a saudade.
E a voz denota
o segredo de amar,
na pergunta nua,
na tristeza fina que vacila,
na pujança de um ser
que soturno definha,
no conforto de te saber
com ganas de poder voltar.
Como te hei-de esquecer?

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Que é da esperança?

Que importa a tristeza,
o desassossego,
o (des)encanto?
Que importa
se o seco soluço,
impede o engolir?
Que importa
se o investir
pereceu?
Que importa se
cada dia esconde
um suspiro,
uma decepção,
uma emoção,
uma ausência?
Que importa?!...
Que é da convicção,
da expectativa,
do sentimento,
do perdão?
Que é de ti,
do entusiasmo,
da paixão?
Que é da esperança?!

terça-feira, 10 de junho de 2008

É sina...

Tanto sacrifício é sina.
É a vida,
num sufoco envolvida,
num soluço infinito,
qual suplício inventado,
na imensidão do nada,
nesta porta já fechada,
em agonia inaudita...
Quanto não daria agora,
para poder, como outrora,
desistir do desafio,
silenciando o elogio,
a emoção e a razão,
e a vida neles inscrita,
e a força, e a desdita,
destes laços de querer,
que num singular padecer,
desata os elos da paixão?!

sábado, 7 de junho de 2008

Foi assim

The Road not Taken

"Duas estradas num bosque amarelo divergiam. Triste por não poder seguir as duas - sendo um só viajante - muito tempo parei.
(...) Naquela manhã ambas (as estradas) tinham folhas ainda não escurecidas pelos passos. Oh, guardei a primeira para um outro dia. Mas sabendo como uma estrada leva a outra, duvidei poder um dia voltar.
(...) Contarei esta história suspirando algures, daqui a muito, muito tempo. Duas estradas, num bosque, divergiam; e eu tomei a que era menos pisada. E isso fez toda a diferença."

VER MAIS
Robert Frost

Leave Out All The Rest



Linkin Park

I Remember You - Chet Baker

O fim do (Des)Encantamentamento

Dou-me um tempo para a interiorização do limite do meu voar. Quebradas as asas, resta-me a memória de um dos capítulos do meu (Des)Encantamento. E os poucos momentos antes do encerramento desta vereda servirá para me readaptar, reacomodando-me. Já sinto as margens a comprimir a minha ânsia de viver, a enfarpelar o quotidiano que se avizinha, a circundar com farpas os limites do meu reino dia, cerceando a minha liberdade devaneio...
Respirar é difícil quando a tristeza me invade profundamente. Intuo que não será mais possível lutar pelo sonho...
Na impossibilidade de um vislumbre de outro modo de ser, aniquilo-me vontade...
Dói-me respirar. Tanto quanto engolir o sofrimento de me saber "rebelde aprisionada"...

Eis-me resignação

Ainda tu, ainda,
na verdade da libertação,
na saudade da relação,
no horizonte da ilusão.
Por quanto tempo?
Em que registo?
Eis-me resignação
e saudade.

Veracidade do sentir

Imprevisivelmente, a solução surgiu.
A decisão brotou da escolha,
coloriu opções,
patenteou alternativas,
construiu possibilidades,
semeou oportunidades,
concluiu processos.
A vereda pela qual me movo,
ladeada de arbustos,
reflecte percursos airosos,
prados de novidades,
lagos de tranquilidade.
Finou o sonho, o oculto,
o menos ético, menos bom.
A insatisfação do querer,
mantém-se,
na veracidade do sentir,
na convicção de saber,
na certeza de não esquecer.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Rumando ao infinito teu

Sonhos espelhados
em cansaços doentios,
alicerces, plantios,
de esperanças danadas,
quinadas,
em esperas desdenhosas,
cúmplices, dengosas,
de convicções insanes.
Tristezas falsete,
em trilhos deleite,
surpresas lembrete,
de loucas quimeras
feitas desejo vão.
Quisera bálsamo sentir,
num azul primaveril
de profunda sedução
e outra seria eu,
de coração ao léu,
rumando ao infinito teu...

terça-feira, 3 de junho de 2008

A vida estagnou...

A palavra constrange,
o sentimento inibe.
O sol é, a cada instante,
submerso no negrume
de um céu enublado,
de um desejo truncado,
nos interstícios do saber,
nas agruras da decepção,
nos dilemas do coração.
Falta o olhar,
a certeza do reforço,
a garantia do valor,
o derrame do encanto
que no silêncio se perde
e na angústia se esconde.
Ressoa o desalento,
o desatino, a desilusão,
na falta de cumplicidade
no decurso da solidão.
Já não me surpreendes mais
nem me crias desafios
ou magias pontuais...
Amor, apenas chove,
o arco-íris não ocorre
e a vida estagnou,
num (des)encanto que marcou...

domingo, 1 de junho de 2008

A vergonha

Com esforço arrebatado,
contive as revoltas,
nos rios abruptos,
cansados tumultos.
Estancando desejos,
desatei a tristeza,
entregando de bandeja,
as profundas ilusões
de desalentos traçados
e encantos reprimidos.
Em vão acreditei,
descrente, esperancei
e, desiludida, chorei.
Com pedra sobre pedra,
o sentimento soterrei,
na vergonha que senti,
tão só porque te amei
e tal não esqueci.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Que ingenuidade!...

Eras tu, inesperadamente,
escondido nas palavras,
no diálogo com a sombra
de uma Ana desculpa,
que não aí ao lado,
não contigo inimaginado.
(In)compreensível a atitude,
o não reconhecimento,
o esconder da identidade.
Tantos porquê agora,
como a falta de transparência,
a ausência de naturalidade,
a não autenticidade,
cada vez mais retumbante,
mais difícil de aceitar,
abrindo outras brechas
aprofundando tristezas,
sulcando desencantos,
cavando desilusões...
Palavras que escondem o quê?
Silêncios para quê?
Que ingenuidade a minha
ter acreditado um dia...

sábado, 24 de maio de 2008

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Quando o ego dançou

Martelam no cérebro
palavras significado,
que ventos distantes,
silvando incólumes,
lançaram carinho,
sugerindo de mansinho,
éticas sensatas:
"Não precisamos de nos por
em bicos de pés
só porque repararam em nós..."
E os ventos descansam,
no desassossego da sombra,
nas sementes distantes,
do degredo sentido,
no arremesso da vida
que a escolha falhou.
Lambendo as feridas
que os ecos denotam,
recordo palavras,
sentidos bizarros,
em que o ego dançou.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Marcas de sentimento

Passado o assombro,
de sorriso nos lábios,
coração tremendo,
esperei convites,
descobri silêncios
e outros deslizes...
Batendo como louco,
saltando do peito,
voando bem alto,
esquecendo defeitos,
querendo, desejando,
ansiando abraços,
na carência dos actos,
esperei presenças,
nas ausências plenas...
E queria eu fugir,
deitar fora amarras,
desistir de ti,
resistindo, recusando...
És ainda tu,
a marca do meu sentir.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Máscara de um sonho nu

Meu carossel de emoções,
estranhas e brancas sensações,
e tantas, tantas ilusões...
Eras tu ainda e sempre,
e eu também, sem mais,
em cada instante, num repente,
em acordes festivais,
de generosa e franca bonomia,
numa espera profunda, até ser dia,
em cada madrugada, cintilante,
o amor, a entrega de amante.
Minha via, à revelia
do regular percurso vetusto,
desdenhado desregrado,
avança um dia, valentia,
atrasa no crepúsculo,
a verdade de ser maior,
o sentido de ser mulher...
E ainda e sempre, sempre tu,
imagem fugidia,
máscara de um meu sonho nu.

OMD: Souvenir

quinta-feira, 15 de maio de 2008

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Não sou mais...

Desalenta,
a desatenção.
A desolação no olhar,
a certeza do vingar
perante a soma do afazer
que se estende e se desmancha
perante a desgarrada,
segundo a função,
de cada um perdida
na definida ejaculação
das anunciadas vontades,
finadas
desajustadas,
encantonadas de betão.
Não sou mais,
não sou não.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

E se um dia...

E se um dia vieres bater à minha porta,
Talvez possa ainda sorrir-te,
Por que não?
Quem sabe a solução,
a certeza da vontade
numa saudosa versão?...

Bem vindos!

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